Curva ABC de insumos: como identificar os itens que mais pesam no custo da obra
Orçamentos · 3 nov. 2026 · 7 min de leitura · Equipe SIGO OBRA
Veja como montar a curva ABC passo a passo, como escolher os cortes das classes A, B e C e o que fazer com o resultado na hora de cotar, comprar e controlar a obra.
Em um orçamento de obra, nem toda linha merece a mesma atenção. Alguns poucos itens costumam concentrar boa parte do dinheiro, enquanto muitos outros quase não mexem no total. A curva ABC de insumos é a ferramenta que mostra quais são esses itens: ela ordena materiais, mão de obra e equipamentos do maior para o menor custo e os separa em três classes. Com ela, você sabe onde vale gastar tempo cotando, negociando e controlando, em vez de dividir o esforço por igual entre o concreto e o prego.
O que é a curva ABC de insumos
A curva ABC aplica ao orçamento a lógica do princípio de Pareto: poucos itens respondem por grande parte do efeito. Cada insumo recebe seu custo total na obra, seu percentual sobre o total e o percentual acumulado. A classe A reúne os itens de maior peso, a classe B os intermediários e a classe C os muitos itens de pequeno valor. O TCU, na publicação Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas (2014), descreve a curva como uma tabela em que os itens são agrupados e ordenados pelo peso relativo no preço total, o que permite avaliar o orçamento examinando apenas parte dele.
Existem duas curvas, e elas respondem a perguntas diferentes:
- Curva ABC de serviços: usa as linhas da planilha, como alvenaria, reboco e concreto estrutural. Mostra quais serviços mais pesam no preço e pede atenção na conferência de quantidades e na execução.
- Curva ABC de insumos: abre as composições e soma cada recurso em toda a obra. O cimento usado em vários serviços vira uma única linha, o que mostra quanto ele pesa de verdade e orienta a compra.
Como fazer a curva ABC de insumos passo a passo
- 1. Parta do orçamento fechado, com quantidades revisadas. A curva herda qualquer erro de quantitativo da planilha.
- 2. Decomponha cada serviço em seus insumos: quantidade do serviço × coeficiente da composição dá o consumo do insumo naquele serviço. Em composições auxiliares, multiplique também pelos coeficientes de cada nível.
- 3. Some o consumo do mesmo insumo em todos os serviços, usando o código para não separar o mesmo item em duas linhas.
- 4. Multiplique o consumo total pelo preço unitário para obter o custo de cada insumo.
- 5. Ordene do maior custo para o menor.
- 6. Calcule o percentual de cada item sobre o total e o percentual acumulado, linha a linha.
- 7. Aplique os cortes escolhidos para classificar os itens em A, B e C e registre qual critério foi usado.
Antes de confiar na curva, confira se a soma de todos os insumos fecha com o custo direto do orçamento. Se não fechar, há serviço sem composição detalhada ficando de fora, e a classificação pode estar escondendo um item importante.
Onde cortar as classes A, B e C
Não existe lei que fixe os cortes de uma obra privada: eles são um critério de gestão. Dois padrões são bastante usados, e cada um atende a um objetivo:
- Padrão comercial (80/95/100): classe A até 80% do custo acumulado, B de 80% a 95% e C de 95% a 100%. É comum em softwares de orçamento e serve para priorizar compra e negociação.
- Padrão IBRAOP (50/80/100): faixa A até 50% do acumulado, B de 50% a 80% e C de 80% a 100%. Vem da Orientação Técnica OT-IBR 005/2012, do Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas, sobre apuração de sobrepreço e superfaturamento, e é usado para selecionar a amostra de itens analisados em auditoria.
Quem prepara orçamento para licitação deve olhar também a curva de serviços. Além da análise de preços, ela ajuda a localizar as parcelas de valor significativo: a Lei nº 14.133/2021, no art. 67, § 1º, restringe a exigência de atestados às parcelas de maior relevância ou valor significativo, assim consideradas as de valor individual igual ou superior a 4% do valor total estimado da contratação.
Há ainda um detalhe que muda o resultado: o que fazer com o item que atravessa o corte. Uma regra é classificar pelo acumulado anterior ao item, de modo que ele permaneça inteiro na classe em que começou. Outras planilhas usam o acumulado depois de somar o item, e o mesmo insumo pode cair em outra classe. Escolha uma regra e mantenha a mesma em todas as obras, para que as curvas sejam comparáveis.
Exemplo ilustrativo de curva ABC
Os números a seguir são apenas ilustrativos, para mostrar a lógica da conta; não são preços nem proporções reais de uma obra. Imagine um custo total de R$ 100.000,00 distribuído em dez insumos, já ordenados do maior para o menor, com o percentual acumulado entre parênteses:
- Concreto usinado: R$ 28.000,00 (28%)
- Aço: R$ 22.000,00 (50%)
- Pedreiro: R$ 14.000,00 (64%)
- Servente: R$ 10.000,00 (74%)
- Bloco cerâmico: R$ 8.000,00 (82%)
- Argamassa: R$ 6.000,00 (88%)
- Telha: R$ 5.000,00 (93%)
- Fios e cabos: R$ 3.500,00 (96,5%)
- Tubos e conexões: R$ 2.000,00 (98,5%)
- Pregos e arames: R$ 1.500,00 (100%)
Com o padrão comercial, classificando pelo acumulado anterior a cada item, a classe A tem os cinco primeiros itens (82% do custo), a classe B tem argamassa, telha e fios (14,5%) e a classe C tem tubos e pregos (3,5%). Repare que o bloco atravessa o corte de 80%, mas continua em A porque começou em 74%. Com o padrão IBRAOP, a faixa A fica só com concreto e aço (50%), a faixa B com pedreiro, servente e bloco (32%) e a faixa C com os outros cinco itens (18%).
A consequência prática aparece na negociação. Conseguir 5% de desconto em concreto e aço economiza R$ 2.500,00 nesse exemplo. O mesmo desconto em tubos e pregos economiza R$ 175,00, e costuma dar um trabalho parecido.
O que fazer com cada classe
- Classe A: faça mais de uma cotação, negocie volume e prazo, programe as compras junto com o cronograma, confira as quantidades com rigor e acompanhe o consumo real contra o orçado durante a obra.
- Classe B: faça cotação normal e acompanhe periodicamente. Vale olhar com mais atenção quando o preço de mercado subir ou o consumo sair do previsto.
- Classe C: simplifique. Compre em lotes, reúna os pedidos com um mesmo fornecedor e não gaste reunião com item que quase não muda o resultado. Só não esqueça dos itens baratos cuja falta para a frente de serviço.
Mão de obra na classe A pede um cuidado diferente de material: em vez de desconto, o foco é produtividade. Compare o coeficiente da composição com o que a equipe entrega de fato no canteiro, porque um coeficiente otimista compromete o custo da obra inteira.
Erros comuns na curva ABC
- Fazer só a curva de serviços e achar que ela mostra o peso dos materiais
- Deixar de fora serviços sem composição detalhada, o que distorce os percentuais
- Tratar o mesmo insumo como itens diferentes por causa de descrições ou códigos distintos
- Montar a curva uma única vez e não refazer depois de mudanças no orçamento
- Usar preços de um mês de referência antigo para decidir a negociação de hoje
- Comparar curvas feitas com cortes diferentes sem perceber a diferença de critério
Os percentuais 80/95/100 são obrigatórios?
Não. Em obra privada, os cortes são uma escolha de gestão. O padrão 50/80/100 vem da Orientação Técnica OT-IBR 005/2012 do IBRAOP e aparece em análises de obras públicas. O importante é informar qual critério foi usado e mantê-lo para poder comparar as curvas.
Devo montar a curva com ou sem BDI?
Quando o mesmo BDI é aplicado a todos os itens, a ordem e os percentuais não mudam, só os valores em reais. Use sem BDI para negociar com fornecedores, porque o preço de compra é custo direto, e com BDI quando precisar que o total bata com o preço de venda do orçamento. Com BDI diferenciado por item, a classificação pode mudar.
Quando devo refazer a curva ABC?
Sempre que o orçamento mudar de forma relevante: revisão de projeto, troca de especificação, aditivo ou atualização do mês de referência. Antes de iniciar as compras principais, vale gerar a versão final para orientar o plano de suprimentos.
No SIGO OBRA, a aba Curva ABC do orçamento gera as curvas de Serviços e de Insumos a partir dos itens lançados, abrindo as composições das bases oficiais e as composições próprias. Você escolhe o padrão Comercial (80/95/100) ou IBRAOP (50/80/100) e o valor com ou sem BDI, vê os totais de mão de obra, insumos e equipamentos, o gráfico com o acumulado e a tabela com a classe de cada item. O sistema avisa quais serviços ficaram sem decomposição, e você exporta em PDF ou Excel.
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